Domingo, Março 12, 2006

a insustentável leveza do ser

"Sem o menor preparo teológico, a criança que eu era naquela época compreendia espontaneamente que existe uma incompatibilidade entre a merda e Deus, e, por dedução percebia a fragilidade da tese fundamental da antropologia cristã, segundo a qual o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus.
(...) Por trás de todas as crenças européias, sejam religiosas ou políticas, está o primeiro capítulo do Gênese, a ensinar que o mundo foi criado como devia ser, que o ser humano é bom e que, portanto, deve procriar. Chamemos essa crença fundamental de ‘acordo categórico com o ser’.
Segue-se o acordo categórico com o ser: tem por ideal um mundo no qual a merda é negada e no qual cada um de nós se comporta como se ela não existisse. Esse ideal estético se chama ‘kitsch’.
Esta é uma palavra alemã que apareceu em meados do sentimental século XIX e que, em seguida, se espalhou por todas as línguas. O uso repetido da palavra fez com que se apagasse seu sentido metafísico original: em essência, o kitsch é a negação absoluta da merda; tanto no sentido literal quanto no sentido figurado: o kitsch exclui de seu campo visual tudo que a existência humana tem de essencialmente inaceitável.
Se ainda recentemente, a palavra merda era substituída nos livros por reticências, isso não se devia a razões morais. Afinal de contas, não se pode considerar que a merda seja imoral: a objeção á merda é de ordem metafísica. Defecar é dar prova cotidiana do caráter inaceitável da Criação. Das duas uma: ou a merda é aceitável (e nesse caso, não precisamos nos trancar no banheiro), ou Deus nos criou de maneira inadmissível."

Milan Jundera - A Insustentável Leveza do Ser.

Domingo, Março 05, 2006

inverno

ardenn: meu inverno já começou.
caralius: mas já? tão cedo!
salem: encerram-se hoje, oficialmente, as comemorações de carnaval.
ardenn: carpe mortem.